Este Atlas é um dos resultados considerados mais importantes deste projecto. Afinal, em certa medida, ele é o espelho do trabalho realizado, mas muito especialmente da forma como ele foi inicialmente concebido.
O projecto foi construído com base numa ideia bem compreendida por todos os que conhecem e estudaram a história europeia. O Mediterrâneo já foi, e pretende-se que volte a ser, um espaço que liga os indivíduos e as comunidades ribeirinhas. Não admira que cada cidade da região tenha construído um conjunto de relações com outras regiões e cidades, que se baseavam muitas vezes nos seus interesses económicos, mas, muitas outras, eram frutos de realidades culturais e sociais complexas. Se há característica que o Mediterrâneo pode reivindicar é que esta região é uma produtora infinita de diferenças, resultante de migrações de povos, guerras infinitas e também pazes prolongadas. Todos os países ribeirinhos, na sua estrutura demográfica põem a claro a enorme diversidade e as mudanças sociais e políticas em que particiaparam.
Neste processo e também no projecto, a tendência inicial é a de nos
colocarmos à 'beira-mar' e tentar olhar as formas e variedade de articulações que cada indivíduo, comunidades e cidades podiam mostrar através do seu património.
Claro que este exercício é, por si só, muito interessante. E, se nos
mantermos perto da costa, podemos identificar um riquíssimo património que
organiza essa memória. A maior parte das cidades portuárias, mesmo que hoje
estejam afastadas da vida do mar, ainda têm uma memória portuária e marítima
de grande valor. Génova, no seu tecido urbano, nas suas estruturas
portuárias e no seu belo Palácio de S. Jorge, ainda é capaz de evocar as
grandes famílias de mercadores que, desde a época medieval, empurraram a
Europa para a modernidade. Pisa ainda hoje apresenta estruturas de grande
interesse que a ligam ao mar e mantém a memória dos bairros habitados pela
gente que trabalhava e vivia para o mar. Mértola continua a surpreender-nos
com a proposta de ser a ¿última¿ porta de saída ou a primeira de 'entrada' do Mediterrâneo e, assim, servia uma vasta região do ¿interland¿. Também Alicante, como o testemunha o seu impressionante e moderno Museu, continua a ter uma articulação com o Mediterrâneo, que vai aprofundando em articulação com outras estruturas da região.
Do mesmo modo, La Valleta continua a ser a cidade do Mediterrâneo por excelência, por onde passaram todos os povos que cruzaram esse mar interior. Testemunho desse passado percebem-se e vêem-se por toda a cidade. Aqui, a catedral de S. João e o Museu Marítimo são a prova clara de uma ilha que foi sempre uma etapa de qualquer viajante. Para Roma nem é preciso justificar a centralidade que tem na memória mediterrânica. Ela foi mesmo o centro da ideia desse mar como fazendo parte de um mesmo espaço coerente.
Então, e como se justifica a participação de uma região como o Alentejo e uma cidade como Évora neste projecto? Como dizia o grande geógrafo Orlando Ribeiro, Portugal pertence ao Atlântico, por posição geográfica, mas é do Mediterrâneo a sua natureza. Se este conceito nos permite uma desculpa inicial para que uma equipa da Universidade de Évora participasse neste projecto, o decurso dos trabalhos foi mostrando que as zonas ribeirinhas tinham uma articulação com os espaços interiores extraordinariamente rica e de certeza já esquecida. Essa relação foi produzindo um conjunto de estruturas de valor patrimonial, que incluem castelos e atalaias, estações de muda, armazéns, passagens de rios, etc, que asseguram a coerência que a actividade comercial em geral foi tendo ao longo do tempo. Aliás, todos aqueles que viajaram pelas regiões do Mediterrâneo e deixaram relatos das suas viagens dão conta da coerência da relação do litoral com o interior.
Todavia, os objectivos do projecto não se restringiam só com a verificação das estruturas de valor patrimonial ligado ao comércio. A outra face do trabalho relacionava-se com as diversas formas de valorização que esse património permitia. A ideia central era permitir valorizar um património mal conhecido e pouco visitado. Neste aspecto, vale a pena recordar o caso de uma cidade como Pisa. Conhecida pela sua torre inclinada e pela área envolvente, a famosa Praça dos Milagres, apesar de possuir um rico património, não consegue que os visitantes vejam o resto da cidade. Infelizmente, por variadas razões, esta situação repete-se por toda a parte. Por isso, um dos objectivos do projecto foi o de discutir e desenvolver estratégias para promover esse outro património menos visto. Neste aspecto, a utilização de novas tecnologias demonstrou ser um recurso com um enorme potencial.
Ao mesmo tempo, o facto de, a par dos parceiros, se ter ido construindo uma rede de museus, que foi incorporando os materiais que se foram produzindo, deu um alcance inovador aos resultados deste projecto.
Quando se vê a lista dos temas dos diversos colóquios e encontros organizados no âmbito deste projecto MERCATOR, é fácil ir acompanhando as discussões que os parceiros iam tendo e os problemas que defrontavam.
No Alentejo, o trabalho permitiu sistematizar conhecimentos dispersos que havia e, especialmente, identificar um património ligado ao comércio que andava muito esquecido. Neste domínio foi também possível permitir olhar para o nosso património como outros olhos e identificar estruturas a que dávamos pouca importância; a paisagem é, a esse propósito, um bom exemplo.
Também aqui, as experiências no sentido de introduzir novos sistemas de informação e divulgação poderão ter resultados interessantes. Como o futuro demonstrará, também foi frutuosa a colaboração dos parceiros com o museu da Aldeia da Luz. Uma nota ainda para um resultado deste projecto e que se relaciona com os laços que se foram criando com algumas comunidades. De facto, a identificação do património em muitas localidades implicou a aproximação a eruditos e especialistas locais que foram ajudando na recolha da informação. Em Castelo de Vide, essa troca de informações foi-se estruturando de tal forma que levou à formação dum núcleo de estudos dedicado ao património urbano e que já pode apresentar alguns resultados.
Este texto - o Atlas - é, afinal, o testemunho de um trabalho que vai chegando ao fim, mas abriu novas pistas para trabalhos e colaborações futuras.
Évora, 30 de Junho de 2008
Filipe Themudo Barata